domingo, 23 de junho de 2013

Só um devaneio

Bom dia.

Acordei engasgada e pra desabafar decidi passar umas palavrinhas pro papel.

Já aviso, o texto é longo, desconexo, mas cheio de verdades. MINHAS.

Sonhei com essas passeatas e manifestações no Brasil. Queria falar sobre a vida de um brasileiro emigrante.
Resultado: cabeça cheia, peito ardendo, turbilhão de emoções e uma necessidade imensa de dividir parte da minha vida com quem interessar. Portanto, aí vai.

Como muitos brasileiros nunca contei muito com o Estado.
Estudei em escola particular a vida toda (mesmo passando o maior perrengue pra pagar a conta). Estudei também em Faculdade Particular (depois de tentar entrar na UFMG por 4 anos, trabalhando em 2 turnos pra pagar a faculdade no fim do mês e matando um leão por dia pra fugir do meu próprio pré-conceito de que aluno de universidade particular não era assim tão bom).
Formei com uma indiscutível bagagem de estágios, empregos e por isso cheia de perspectivas. Esperança de encontrar um bom emprego e garra pra procurar um.

Não dava sem mestrado.

Tentei mais uma vez participar do mundinho Universidade Federal, mudei pra viçosa, trabalhei de graça por 6 meses, tirei A nas disciplinas isoladas e no fim, por pura falta de “indicação” não consegui a vaga. Uma luz apareceu no fim do túnel. Um estágio nos USA poderia pagar algumas contas, me ensinar inglês e, quem sabe, me ajudar a encontrar quando voltasse o tal “bom emprego” tão sonhado.
Fui pra lá.
Dei duro, passei aperto e venci. Consegui ensinar a alguns gringos que o Brasil vai além de carnaval e futebol, que somos honestos e temos palavra. Bom, eu fiz, alguns amigos também, e vejo que defendemos nosso país com unhas e dentes contra todo tipo de má informação.
Em 1 ano de trabalho lá ganhei o mesmo que em 10 anos de trabalho no Brasil. Tive acesso a tudo que nunca tive chance e como sofri com a vontade de dividir isso tudo com a MINHA GENTE. Comprei meu 1 carro enquanto meu pai (na época com 60 anos) andava a pé, de ônibus, e se matava pra manter a pequena empresa funcionando.

Voltei com a mala cheia e fui chamada de fresca. Paguei 5 dólares em blusas de marca e isso era visto como “consumismo excessivo ou necessidade de me mostrar”. Ajudei em casa, arrumei um emprego novo e tentei de todo jeito me adaptar em BH. Ouvia quase todo dia que “tudo o que vem de fora é melhor”. Que bom era a bolsa da marca tal (americana) e por isso custava 500x mais do que o preço original nos USA. Que bom era a cerveja tal (e eu MORRI de saudade da brasileira), que a comida assim, a roupa assado, o carro tal, isso ou aquilo, TUDO QUE ERA DE FORA ERA MELHOR. Eu nunca concordei. Morri de saudade do feijão tropeiro, da mandioquinha frita, do copo lagoinha e dos nossos churrasquinhos de gato.
O trabalho em BH era muito bom (o melhor que já tive no Brasil), mas nem de longe dava pra pagar um quarto alugado ou um carro velho. Me vi na casa dos meus pais, beirando os 30 e sem nenhuma ideia de como faria pra me sustentar sem  depender de ninguém.
Pensei no mestrado denovo. Apliquei pra Portugal. Passei.

Larguei tudo e decidi começar denovo.

Apanhei outra vez. Da vida, da imigração, da saudade, da adaptação.
Venci. Consegui trabalho, acabei o mestrado com muitas estrelinhas e pensei se não era a hora de fazer parceria com o Brasil denovo. Por isso tentei doutorado no Brasil pelo Ciências Sem Fronteira 3 vezes. 
Mesmo currículo, mesmo projeto e adivinha? Não passei.  Ainda não era boa pro meu próprio país (mas fui boa o bastante para passar em Portugal em 2 lugar GERAL). Irônico? Pra mim também foi.
Continuei obrigada a viver fora, longe dos pais, amigos e tentando defender denovo o país que NUNCA me ajudou (o MEU). Vesti e visto a camisa do Brasil aqui. Luto TODOS OS DIAS pra mostrar pros gringos que valemos a pena. Que somos descentes (apesar de tanta corrupção, mentira, roubalheira, carnaval e futebol).

Hoje vejo as manifestações em todas as cidades do Brasil. Me encho de orgulho e esperança. Esperança de um dia voltar pra MINHA terra, aquela que chorei tantas vezes por estar longe, que defendi (mesmo sem conhecer tão bem). É verdade que os movimentos por vezes são sem objetivo, manipulados e causam uma péssima impressão (por culpa dos vândalos que participam dele), mas como desejo que eles deem resultado.

Desejo que os brasileiros consigam ver o país como eu vejo: um lugar cheio de potenciais, gente boa, lindo, clima ótimo e com TUDO PRA CRESCER.
Não acho que perdemos pra lugar nenhum da Europa ou States. Perdemos pra nós mesmos. Pela falta de valorização, de um governo descente, de chance de viver como se deve: com respeito, alegria e paz.

É por um Brasil assim que eu quero continuar lutando. Mesmo de longe (já que como boa brasileira não sou burra pra me submeter a vida que HOJE teria chance aí). Vou terminar o doutorado fora, aprender tudo o que puder e continuar sonhando que um dia vou poder aplicar isso tudo no meu quintal (ali em minas, ou em qualquer outro canto do país que me dê chance de viver em paz).

E é com saudade, com o coração apertadinho, que queria dividir isso com quem quiser ler. 

Eu tenho fé e disposição pra lutar por um Brasil melhor por um único motivo: EU AMO O MEU PAÍS.


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